Leituras – Isabel Lucas

Conversas com Escritores de Isabel Lucas

Ano de Edição: 10-2024
Editor: Companhia das Letras

“Mas se amamos um escritor, se dependemos do alimento das gotas da sua inteligência, se o queremos procurar e encontrar — apesar de todas as ordens em contrário —, então nunca sabemos demais.»
JULIAN BARNES
O Papagaio de Flaubert

INTRODUÇÃO

“Seja pelo processo criativo do entrevistado, por certas decisões que tomou, pela ligação directa ou indirecta entre as suas vida e obra, pelas influências, pelo pensamento que é capaz de produzir a partir de determinada pergunta ou interpelação. E este é um dos momentos mais fascinantes para quem entrevista: sentir que a pessoa que tem à frente está a ser criativa fora da escrita literária. É como assistir ao vivo ao nascimento de uma ideia, de um raciocínio original. Habitualmente, essa cumplicidade acontece quando o entrevistador e o entrevistado percebem e respeitam a relação de poder que ali se estabelece.”

LYDIA DAVIS

A ironia está em quase todas as suas histórias. É assim que olha o mundo, de forma irónica?

Sim, é. O que somos transparece na escrita, por mais que o queiramos esconder ou disfarçar ou censurar. Por isso, costumo dizer aos meus alunos de Escrita para se rodearem de coisas estimulantes, interessantes, para separarem as várias partes que compõem a sua escrita. Além de servir para se treinarem na língua, reconhecerem as suas nuances de forma muito precisa, tento que se cultivem a si mesmos, que sejam capazes de reconhecer as suas características. Peço-lhes para não verem programas de televisão aborrecidos ou estúpidos. Para cultivarem as suas mentes e os seus caracteres. O que escreverem reflectirá a sua vivência. E, depois, alerto-os sempre para a liberdade e a necessidade de expressarem na sua escrita o que são. Para mim, as coisas funcionam assim. Se tenho ironia na escrita, é porque isso faz parte de mim. Não é algo trabalhado, artificial.”

NOVA IORQUE, 5 DE JUNHO DE 2015

PAUL AUSTER 

“… Foi o acontecimento mais forte da minha vida. E aos 14 anos somos tão vulneráveis, ainda não sabemos quem somos, e ter essa lição de que qualquer coisa pode acontecer é um choque. Até então, eu achava que o mundo era mais sólido, que as coisas se movimentavam de forma mais racional, mas entendi ali que o mundo é irracional e o inesperado acontece continuamente. Essa história assombrou-me desde então, e acho que pô-la finalmente no centro do romance foi, a nível emocional, muito importante para mim.”

“… Mas, ao mesmo tempo, apesar das belezas da Constituição Americana, é também um país fundado em dois enormes crimes: o genocídio dos indígenas e a escravatura durante trezentos e cinquenta anos. É obsceno! O que complica a América, e continua a ser um problema, é que as pessoas não querem enfrentar estas duas coisas.”

“Parece tão racional, mas estamos a viver num país irracional. Porque é que se há-de querer tirar a assistência médica? É como dizer que estamos a querer matar pessoas. É a mesma coisa, porque vão morrer por causa disso. Às vezes, chamo jihadista ao Partido Republicano. Estão empenhados em destruir. Querem fazer dinheiro e lixar toda a gente. Não queria estar tão cínico, mas estou. Estas pessoas não se preocupam com nada além da satisfação própria. Mas, se olhar para a História americana, pode ver que tivemos estes conflitos desde o início. Sempre me pareceu um país dividido. Por um lado, pessoas que acreditam que vivemos juntos numa sociedade e que todos somos responsáveis por todos, por outro, pessoas que acreditam que cada indivíduo não tem de ouvir ninguém sobre nada. A América é isso: a minha liberdade, e não tenho de me importar com mais ninguém.”

NOVA IORQUE, 10 DE FEVEREIRO DE 2017

ZADIE SMITH

“ Há sempre uma série de pessoas que estiveram envolvidas nas nossas conquistas pessoais. Mesmo quando depende do exercício de talento, isso não faz de nós alguém particularmente maravilhoso por ter essa sorte, ser capaz de actuar muito bem num palco ou ler e escrever muito bem. Não é uma opinião popular, as pessoas gostam de merecer os seus dotes, mas eu tendo a a assumir que a maior parte das coisas são acidentais – são sorte ou resultam da ajuda ou da contribuição de outros, e o que temos realmente é muito pequeno; talvez o nosso corpo.”

“Sempre resisti à ideia de orgulho, o orgulho da pertença. Quando digo que sou uma mulher, britânica, negra, não digo que me orgulho de ser este tipo de pessoa. Mas posso trazer o amor para aqui e dizer que gosto de ser isto, mas talvez também gostasse de ser outras coisas. Sejamos quem formos, somos capazes de encontrar uma razão para gostarmos de o ser. Mas orgulho… Entendo o sentimento de um orgulho colectivo, no nosso povo, no nosso país, mas eu não o tenho.”

LONDRES (por videochamada), 14 DE JULHO DE 2017

TEJU COLE

«Para mim, ser patriótico é quase como submeter-se, ser subjugado. Não sou. Sou um cidadão. E um cidadão é alguém que se empenha, se compromete com outros cidadãos acerca do que a sociedade deve ser. Mas não me digam o que amar. Não me digam quando me levantar.”

É verdade que quando lhe perguntaram o que a Nigéria signi­ficava para si respondeu que era uma equipa de futebol?

Sim. Quando a equipa joga bem. Gosto muito de viver lá. Tenho também ligações culturais, mas não sou muito bom nisso de ser patriótico. Também não sou patriótico em relação à América. Para mim, ser patriótico é quase como submeter-se, ser subjugado. Não sou. Sou um cidadão. E um cidadão é alguém que se empenha, se compromete com outros cidadãos naquilo que a sociedade deve ser. Mas não me digam o que amar. Não me digam quando me levantar. Claro que os Estados Unidos, o outro país de que sou cidadão, estão numa tremenda confusão actualmente. Nunca fui patriótico, e muito menos sou patriótico agora.”

Sente que, como escritor, tem uma responsabilidade ética diferente?

Acho que a responsabilidade ética não se prende especificamente com escrever artigos de crítica política. A responsabilidade é reconhecer que a coragem é contagiosa. A descolonização não é algo que se faça uma vez, e está resolvido. A descolonização é um processo diário, é um trabalho pessoal, recusar ter um amo. Para mim, estes actos de recusa política são também uma coisa diária. A maioria dos americanos brancos votou nele. Isto é muito sério. Faz-nos perder alguns amigos, se tiver de ser.”

“O racismo não importa na Nigéria. A Nigéria é negra. É por isso que gosto de ser nigeriano lá. É um pouco diferente no Quénia, onde algum colonialismo ainda prevalece. E claro que é muito diferente na África do Sul, onde os brancos continuam a controlar grande parte da economia. Quando se está habituado a ser superior, a igualdade apresenta-se como opressão. É o que está a acontecer com os sul-americanos brancos.”

Por falar em James Baldwin… porque acha que ele foi tão pouco popular no tempo em que viveu e hoje ganhou um estatuto quase de mentor ou profético nos Estados Unidos?

    Não sei bem. Acho que estar morto é bom para a nossa popularidade, mas Baldwin, em muitas coisas, estava à frente do seu tempo. Era negro e pobre e muito eloquente, politicamente muito arguto. Era capaz de, em poucas palavras, descrever um problema. Era gay num tempo em que muito pouca gente o assumia. E lemos as coisas que ele escreveu nos anos 60 ou 70 e é espantoso, está ali o nosso presente. Parte da sua popularidade tem que ver com isso, mas ele sofreu muito. E não apenas por causa da estrutura racista da sociedade, mas também por causa de outros negros que não o entenderam. ­Baldwin faz-me regressar à ideia de que o escritor é alguém que nos pode ensinar o que é ser livre. Ele foi livre.”

PORTO, OUTONO DE 2017

SALMAN RUSHDIE

«A ficção e a mentira são inimigas, de várias maneiras. Muitas vezes, diz-se que são a mesma coisa, porque são formas de fazer acreditar. Mas a literatura está ao serviço da verdade, enquanto a mentira está ao serviço da falsidade. Num tempo como este, a literatura pode refazer o contrato entre escritor e leitor, um acordo acerca do que é a verdade.”

“Podemos desculpar pessoas que não nos pediram desculpa e podemos recusar-nos a perdoar pessoas que nos pedem desculpa. A desculpa é em benefício da pessoa que pede perdão ou é em benefício da pessoa que perdoa?”

Diz-nos sobre Salma que ela está consciente dos demónios da América. A Irmã, por outro lado, quando descreve o Reino Unido, fala de gente esfrangalhada num país esfrangalhado. Vive num desses países, viveu no outro. Quais são os demónios da América e o que é que esfrangalha o Reino Unido?

Essa pergunta é interessante. A América é um país com uma cultura rica, mas tem base em dois crimes. O primeiro foi o extermínio da população indígena, e o segundo foi a escravatura. Nenhum dos dois foi totalmente nem exumado nem enfrentado, nem entendido, nem tratado como algo que precisa de ser encarado. Foram varridos para debaixo do tapete. Agora, temos este súbito interesse na questão racial, mas, se falar com qualquer afro-americano, ele dirá que sempre foi assim: ser uma pessoa negra na América tem sido assim, sempre. O que é diferente agora é o telefone inteligente. Agora, podemos filmar estas coisas a acontecerem.”

E em que é que o Reino Unido é diferente?

A Inglaterra também tem um passado por examinar. Que tipo de colonialismo foi aquele? O que foi o império britânico? Tenho dois filhos que passaram pelo ensino britânico, em boas escolas, e a nenhum foi dada uma lição, nem uma hora de instrução, sobre o império britânico. É só o facto mais importante da História britânica! As pessoas não o ensinam nas escolas, por isso não é entendido. Quando Boris Johnson fala da idade de ouro de Inglaterra, a que é possível voltar se se livrarem de todos os estrangeiros, quer dizer o quê? Que aquele período de poder e riqueza ingleses foi baseado na exploração de metade do planeta? ! As pessoas não sabem que a razão do poder inglês foi o imperialismo. Mas ser alguém como eu, que nasceu no lado indígena no rescaldo desse império, é uma parte essencial no modo como se vê o mundo.”

E que é?

É saber o que é a natureza do poder e não desprezar isso fingindo que foi apenas a idade de ouro de um país onde toda a gente bebia champanhe junto ao rio e tinha vidas idílicas. Esse ideal baseia-se na exploração de outras ­pessoas. Do mesmo modo que a América tem a escravatura, a Grã­-­Bretanha tem o império. Nos dois casos, o que está a acontecer é uma narrativa falsa acerca do passado, por parte de líderes sem escrúpulos, de modo a justificar abusos do presente.

A frase Make America Great Again, por exemplo: quando é que a América foi grande? Foi quando houve escravatura? Foi antes de as mulheres terem direito ao voto? Foi antes do Movimento dos Direitos Civis? O mito da idade de ouro é que a idade de ouro nunca existiu. Usa-se a mitologia da idade de ouro para justificar comportamentos sem escrúpulos no presente.”

NOVA IORQUE, 16 DE OUTUBRO DE 2020

DON DELILLO

Uma das suas personagens, Diane Lucas, poetisa, diz: «Perdemos a nossa capacidade de nos assombrarmos, perdemos a curiosidade.» Isso tem que ver com o que referiu antes, o modo como a nossa memória se alterou e mudou também o acesso ao saber, na ilusão de que tudo está à distância de um botão ou de um ecrã?

O problema é que nos estamos a tornar vítimas da tecnologia, mas não de forma prática. Estamos a tornar-nos vítimas, de uma maneira mental e filosófica, de uma maneira que influencia profundamente, de um dia para o outro, o modo como pensamos, mas também em relação à nossa própria identidade. Como é que pessoas que hoje têm dez ou quinze ou vinte anos serão afectadas por estas mudanças quando ­tiverem trinta, quarenta ou cinquenta? Não estou seguro quanto à resposta, mas serão, de certeza, fortemente afectadas.”

NOVA IORQUE (por videochamada), 15 DE JANEIRO DE 2021

SOBRE A AUTORA

“Isabel Lucas é jornalista e crítica literária. Licenciada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa, começou a fazer jornalismo na televisão e passou, entretanto, pelas redações de alguns dos principais jornais e revistas portugueses. Freelancer desde 2012, escreve regularmente para o jornal Público, colabora com a revista Ler, com a Quatro Cinco Um e com a Antena 3. (…)”

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