Choupos de Adília Lopes
Ano de Edição: 05-2023
Editor: Assírio & Alvim
“Da janela das traseiras, no quintal, vejo umas flores roxas de que não sei o nome. Logo de manhã estão fechadinhas, nem se vê o roxo. Com o sol abrem, ficam lindas. Disto é que eu gosto. As patetices das pessoas não me interessam, não tenho paciência. Detesto gente embiocada. Detesto sabichice. Quase tudo o que é humano me é estranho. Terêncio disse o contrário.
Lx, 27-VI-2022″
“As raízes dos choupos danificam os alicerces da minha casa. Gosto muito da minha casa. Mas também gosto tanto dos choupos! Não quero que os venham cortar.
Lx, 27-VI-2022″
“Aproveita o dia
aproveita o instante
um dia é muito tempo”
“O primeiro álcool que bebi foi um cálice de vinho da Madeira. Os meus pais quiseram que eu experimentasse beber álcool, que fosse iniciada, disseram que eu havia de gostar do jiripiti. Eu tinha uns dez anos, talvez. No fim de um almoço, em casa, o meu pai tirou uma garrafa de vinho da Madeira de um armário que ainda hoje tenho na sala, encheu um cálice pequeno e deu-mo. Eu bebi e gostei muito. Tenho 62 anos, nunca mais bebi vinho da Madeira. Agora apetecia-me um cálice de vinho da Madeira para bebericar aos golinhos e agradecer o que a vida tem de bom. A vida é má. Os meus pais já morreram. Não é escrever este texto nem beber vinho da Madeira que volta a dar a vida aos meus pais. Para que escrevo eu este texto? Bastava comprar uma garrafa de vinho da Madeira, não era preciso estar a escrever estas coisas. Mas gosto de dar notícias do meu mundo, de partilhar com os amigos memórias prazenteiras. Nem preciso de beber vinho da Madeira. Nunca fui de beber, nunca andei a dar de beber à dor, não sou muito de fados. Gostava de beber um cálice de vinho da Madeira porque é alegre.
Lx, 23-XI-2022″
SINOPSE
Escrever dias e dias, com o belo cantar dos pardais, ou à sombra de Choupos. Adília Lopes retoma o fio narrativo dos seus últimos livros, envolvendo-nos num novelo, sempre novo, de histórias pessoais, considerações sobre os mais variados temas: pequenos poemas com a habitual dose de realidade da poeta.
Um poema novo. Um vestido novo. Escrever à máquina. Coser à máquina. A máquina de escrever. A máquina de costura.
SOBRE A AUTORA
Adília Lopes, pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, nasceu em Lisboa em 1960 e faleceu a 30 de dezembro de 2024. Frequentou a licenciatura em Física, na Universidade de Lisboa, que viria a abandonar quando já estava prestes a completá-la. Começa a publicar a sua poesia no Anuário de Poetas não (…)
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