Os Maias Episódios da Vida Romântica de Eça de Queirós
“Toda a educação sensata consiste nisto: criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo duma grande superioridade física. Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois… A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande…”
“Afonso Maia deu um repelão à carta, menos enojado das torpezas da história, que daqueles lirismos relambiados.”
“Não havia um quadro, uma flor, um ornato, um livro – apenas sobre a jardineira uma estatueta de Napoleão I, de pé, equilibrado sobre o orbe terrestre, nessa conhecida atitude em que o herói, com um ar pançudo e fatal, esconde uma das mãos por trás das costas, e enterra a outra nas profundidades do seu colete. Ao lado uma garrafa de Champagne, encarapuçada de papel dourado, esperava entre dois copos esguios.
– Para que tens tu aqui Napoleão, John?
– Como alvo de injúrias, disse Era. Exercito-me sobre ele a falar dos tiranos…”
“- Tu és extraordinário, menino!… Mas o teu caso é simples, é o caso de D. Juan. D. Juan também tinha essas alternações de chama e cinza. Andava à busca do seu ideal, da sua mulher, procurando-a principalmente, como de justiça, entre as mulheres dos outros. E après avoir couché, declarava que se tinha enganado, que não era aquela. Pedia desculpa e retirava-se. Em Espanha experimentou assim mil e três. Tu és simplesmente, como ele, um devasso; e hás de vir a acabar desgraçadamente como ele, numa tragédia infernal!”
“- Não sei, talvez goste mais disto, murmurou o maestro.
A sua natureza de tímido preferiria, decerto, estes humildes recantos, feitos de uma pouca de folhagem fresca e de um pedaço de muro musgoso, lugares de quietação e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o cismar dos indolentes…”
“Mas o seu encanto estava em conservar-se fácil, sereno, sem penetrar mais fundo que a epiderme. Se ela, por qualquer cousa, tinha os olhos turvos de água, e falava em morrer, e torcia os braços, e queria fugir com ele – então adeus! Tudo estava estragado: e a Sr.ª condessa com a sua verbena, os seus cabelos cor de brasa, e o seu pranto, era apenas um trambolho!”
“Ele tinha-lhe feito assim largamente todas as confissões; – e ainda não sabia nada do seu passado, nem mesmo a terra em que nascera, nem sequer a rua que habitava em Paris. Não lhe ouvira murmurar jamais o nome do marido, nem falar dum amigo ou duma alegria da sua casa. Parecia não ter em França, onde vivia, nem interesses, nem lar; – e era realmente como a deusa que ele ideara, sem contactos anteriores com a terra, descida da sua nuvem de oiro, para vir ter ali, naquele andar alugado da Rua de S. Francisco, o seu primeiro estremecimento humano.”
“E acrescentou logo, acendendo o charuto:
– Que apenas tu saíste, pôs-se melhor, mais à vontade… Rimos muito… Eu fiquei ainda até tarde, quási duas horas mais; era perto das cinco quando saí. Outra coisa, ela falou-te alguma vez de mim?
– Não. É uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, não se atreveria a dizer-me mal de ti.
Dâmaso olhou-o, esgazeado:
– Ora essa!… Mas podia ter dito bem!
– Não; é uma pessoa de bom senso, não se atreveria também.”
“Afonso no entanto perguntava também ao Era pela comédia. O quê! Já abandonada? Quando acabaria então o bravo John de fazer bocados incompletos de obras-primas?… – Era queixou-se do país, da sua indiferença pela arte. Que espírito original não esmoreceria, vendo em torno de si esta espessa massa de burgueses, amodorrada e crassa, desdenhando a inteligência, incapaz de se interessar por uma ideia nobre, por uma frase bem feita?
– Não vale a pena, Sr. Afonso da Maia. Neste país, no meio desta prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de bom senso e de gosto deve limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano…
– Pois então, acudiu o velho, planta os teus legumes. É um serviço à alimentação pública. Mas tu nem isso fazes!”
“O velho escutava com melancolia estas palavras do neto, em que sentia como uma decomposição da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a glorificação da sua inércia.
Terminou por dizer:
– Pois então façam vocês essa revolução. Mas por amor de Deus, façam alguma coisa!
– O Carlos já não faz pouco, exclamou Era, rindo. Passeia a sua pessoa, a sua toilette e o seu phaeton, e por esse facto educa o gosto!”
“Foi breve, e foi cruel: sacudiu a mão do Gouvarinho, saudou de leve o Cohen: e sem baixar a voz, disse ao Dâmaso friamente:
– Ouve lá. Se continuas a falar de mim e de pessoas das minhas relações, do modo como tens falado, e que não me convém, arranco-te as orelhas.”
“Ega ergeu-se, atirou um gesto desolado:
– Falhámos a vida, menino!
– Creio que sim… Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: “Vou ser assim, porque a beleza está em ser assim.” E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia como o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente.”
“Ega, em suma, concordava. Do que ele principalmente se convencera, nesses estreitos anos de vida, era da inutilidade de todo o esforço. Não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na terra – porque tudo se resolve, como já ensinara o sábio do Eclesiastes, em desilusão e poeira.”
SINOPSE
“Prefácio de Carlos Reis
Em Lisboa, no tumultuoso final do século XIX, as vidas de Carlos da Maia, jovem médico com consultório acabado de abrir, e da misteriosa Maria Eduarda, de passagem pela capital, cruzam-se num jantar. A paixão entre ambos, mote de toda a narrativa, é inevitável e consome as várias personagens envolvidas numa voragem funesta de hipocrisia e arrogância cujo desfecho se revelará fatal.
Os Maias – Episódios da Vida Romântica, obra-prima incontestável da literatura portuguesa, é o retrato vivo de uma sociedade em declínio, culturalmente diletante e politicamente decadente, observada pelo olho clínico de Eça de Queirós, que a descreve com implacável e refinada ironia e apurado sentido crítico.
Um romance inexcedível.”



