Leituras

Terceiro Andar Sem Elevador de Susana Moreira Marques

“Também só ao fim de muito tempo fora da minha cidade natal é que, ao regressar, me espantou que as pessoas se olhassem tanto e tão directamente: no Porto, quando dois desconhecidos se cruzam, ainda que não parem, parece sempre haver uma pausa de reconhecimento.”

“Em Lisboa, aprendo a arte do desvio. Essa arte de nos aproximarmos mas sabermos afastar-nos a tempo. De mudarmos de direcção sem termos planeado, porque encontrámos alguém ou porque não encontrámos alguém. De interrompermos o sentido do trânsito para começar uma luta – ou um romance.”

“Outros exemplos, díspares, de desvios: as viúvas dos náufragos, antigamente, numa pequena cidade da costa, a evitarem o mar, caminhando por ruas interiores em vez de na marginal, para manifestarem o seu desagrado com a natureza das ondas;”

“O rio está sempre a mover-se. É algo que aprendemos em crianças, nas escola. Que um rio corre, e corre sempre na mesma direcção. Que conseguir um desvio do seu curso implica um enorme dispêndio de energia humana. Mas não é por sabermos disto que constantemente não caímos na ilusão de o acreditar parado.”

“Uma pessoa fixa a sua identidade numa determinada altura e depois tem dificuldade em reconhecer-se no corpo que se modifica.
E da mesma maneira que as cirurgias plásticas não devolvem esse corpo, apenas o transformam numa outra coisa, também as remodelações, os restauros, as obras de recuperação não reerguem a cidade que se conheceu numa determinada altura, mas uma memória dela.”

“Saindo da cidade, chegando a uma pequena vila, não é a ausência de grandes estruturas que me chamam a atenção, mas antes a antiguidade daquelas que existem. Espanta-me também a quantidade de muros, que delineiam propriedades, e o trabalho que aqueles muros deram. E a maneira como o trabalho foi feito para que durasse no tempo, até um momento em que se esquecesse todo o trabalho, como se cada muro fizesse parte da própria natureza.”

“A Partir de certa idade, sabemos que o amor é para sempre, mas também a desilusão. Que a felicidade é para sempre, mas também o sofrimento. A partir de certa idade, começamos a repetir erros e também sucessos. Já sabemos que a eternidade reside na repetição.”

“A ideia de que algo poderá vir a acontecer – um terramoto, uma guerra que atravesse várias fronteiras, uma tempestade tropical fora da sua geografia – não muda em quase nada a maneira como vivemos.
Continuamos a contar histórias aos filhos à noite e a fazer tudo com normalidade. E talvez, quando o desastre acontece, o que queiramos é continuar a poder contar histórias aos filhos à noite e que, nessas histórias, pelo menos, se veja o melhor de nós.”

SINOPSE

«Sempre gostei de guardar postais de lugares próximos de mim, mais do que de lugares distantes. Tenho em casa, por exemplo, um postal de uma das ruas onde vivi em Lisboa, logo após o regresso de Londres. Não é uma recordação: é uma nota a mim mesma para me lembrar do quanto viajei para quase não sair do lugar.»

Em Terceiro Andar sem Elevador, Susana Moreira Marques é autora e, ao mesmo tempo, personagem de uma história que se conta em episódios sem sucessão previsível. Estas Notas de Lisboaencadeiam-se a partir da relação de uma mulher com a cidade onde vive, mas ramificam-se pelos lugares que essa mulher habitou: lugares que são geografias, mas também desejos, desencontros, livros, noites de festa, uma criança que cresce, um amor que acaba, uma recordação que parecia perdida.

Mais do que a narrativa do quotidiano num bairro lisboeta, este é um livro sobre o tempo moderno — o que se vislumbra num ecrã digital ou de uma janela de sacada. A escrita fragmentária espelha, contra-intuitivamente, uma ideia de literatura que parte do real e do particular, para se transfigurar numa hipótese, num modo possível de vida em liberdade.

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