Leituras

Agora e na Hora da Nossa Morte de Susana Moreira Marques

“No cemitério, uma fotografia, e às vezes só um nome. Os nomes sobrevivem, mas nunca foram os nomes que nos fizeram únicos.”

“À entrada das aldeias, logo antes ou logo depois do desvio da estrada principal, costuma haver uma Nossa Senhora. Normalmente, está dentro de uma redoma, como se necessitasse de cuidades especiais, como se sem o vidro, desportegida pelos homens, fosse incapaz, por sua vez, de os proteger a eles.”

“Quando as pernas deixarem de andar, caminharemos pelas memórias. Quando as pernas deixarem de andar e os olhos deixarem de ver, caminharemos pelas memórias e estas serão nítidas. Quando as pernas deixarem de andar e os olhos deixarem de ver e os ouvidos deixarem de ouvir, caminharemos pelas memórias e estas serão nítidas e vozes esquecidas contarão tudo de novo.”

“O miúdo anda de bicicleta numa rua sem carros, que lhe parece muito comprida. No final da rua, mais uma rua, e depois o campo, isto é, o mundo com possíveis e impossíveis. Daqui a muitos anos, quando regressar à sua aldeia, se ainda houver aldeia, verá como afinal era curta aquela rua e o campo, pouco maior do que um bom quintal. Daqui a muitos anos é possível que não veka uma só criança, fazendo aquele mundo grande; e que se sinta uma espécie em vias de extinção.”

“Sou muito egoísta em relação ao meu pai. O meu pai é meu. Quem conhecia o meu pai era eu. E às vezes, mesmo em relação à minha mãe, digo: “Está bem, tu é que estiveste casada com ele trinta anos, mas há muitas coisas do meu pai que só eu é que conhecia.” Eu é que sabia o que ele gostava. Claro que isto é um bocado inconsciente, mas eu agora quero que a nossa relação seja intocável.”

«Há coisas sobre as quais não se pode escrever como sempre se escreveu. Algo muda. Primeiro os olhos, depois o coração — ou os nervos ou aquilo a que os antigos chamavam alma — e finalmente, as mãos.»

SINOPSE

Susana Moreira Marques guia-nos por aldeias esquecidas de Trás-os-Montes, por rotas de viagem onde a paisagem é solidão, por rituais de despedida, gestos de consolo e promessas de futuro. Um enfermeiro que fica à cabeceira dos pacientes; uma mulher que engana o marido, escondendo-lhe que ele tem cancro; um homem acamado que precisa de ser escondido da sua querida mulher, demente — pessoas no fim da vida ou pessoas que não abandonam quem está doente contam as suas histórias. Narrativa atravessada pela sombra, Agora e na hora da nossa morte ilumina as vidas de quem fala, mas também de quem lê, para que ninguém se esqueça e ninguém seja esquecido.

Susana Moreira Marques mistura viagem, história oral, reportagem e meditação filosófica, para escrever sobre a memória e a mortalidade, o tempo que nos falta, as raízes rurais, os laços de amor. No livro com que se estreou, inaugura uma nova linguagem para falar de uma ideia antiga — um gesto tão comovente quanto revolucionário.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *